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Artigos
28/02/2005
Estratégias Artificiais de Aparente Aumento de Massa Muscular

Apesar da recente divulgação da estratégia de aplicação intramuscular de substâncias oleosa com o objetivo de aparente aumento do volume muscular, este não é um fenômeno recente. Em verdade, este arriscado artifício foi iniciado na década de 60, a partir do óleo chamado ´esiclene´ (substância composta basicamente por triglicerídeos). Posteriormente, o ´synthol´ (Pump´n´Pose) foi criado para aplicação na pele, que melhora a visualização dos planos musculares, favorecendo os atletas durante os campeonatos de culturismo. No entanto, a verdadeira função do synthol sempre foi (e ainda é) a aplicação intramuscular. Grupos musculares que não alcançam o desejado grau de hipertrofia são escolhidos para terem o óleo injetado e assim, terem seu volume igualado a outros mais desenvolvidos. Os locais mais freqüentemente manipulados são as panturrilhas e a porção posterior dos deltóides, mas verdadeiras aberrações são encontradas, como aplicações maciças nos bíceps e tríceps.

Considerando que tenha sido injetado dentro do músculo e longe de vasos sanguíneos e nervos, o depósito de óleo afasta e rompe as fibras musculares circundantes. Assim, este ganha um aspecto bem maior. Ao invés da desejada hipertrofia muscular (aumento do número e tamanho das fibras, do glicogênio e do tecido vascular e conjuntivo), o que ocorre realmente é que o depósito localizado dentro do músculo faz com que este aparente ser maior e mais tenso, simulando uma verdadeira hipertrofia muscular. Portanto, a expressão "hipertrofia muscular" não é adequada, embora usual entre os adeptos da estratégia.

A partir deste momento, ocorre uma verdadeira batalha entre o organismo e o conteúdo injetado. No princípio, o mecanismo é semelhante a uma reação inflamatória comum, como a que acontece após uma ruptura decorrente de estiramento muscular, por exemplo. Regionalmente, há dilatação de vasos sanguíneos, aumento de volume, temperatura e afluxo de células do sistema imunológico. Os leucócitos identificam o conteúdo oleoso como sendo "estranho" ao organismo (no self) e passam a atacar aquele corpo estranho através de processos como o englobamento de partículas (fagocitose, pinocitose) e liberação de enzimas. Apesar do objetivo inicial de limpeza e reparação dos tecidos musculares lesados, as reações enzimáticas ampliam a destruição do tecido muscular circundante. Como o volume injetado é usualmente grande, a tentativa de dissolver totalmente o seu conteúdo ocorre em vão. O resultado em longo prazo é a formação de uma espécie de bolsa (cisto) que engloba o conteúdo oleoso e o isola do tecido muscular adjacente. Uma vez formado, o cisto não se dissolve e sua remoção só é possível através de procedimento cirúrgico.

Por diversos motivos, existem casos em que o cisto não se forma. Livre, o óleo se espalha pela região vizinha e amplia a agressão tecidual. Tecido conjuntivo, nervos, músculos, tendões e vasos sanguíneos lesados têm que ser removidos por procedimentos cirúrgicos agressivos. Fotografias do "antes-durante-depois" destes casos estão disponíveis na rede mundial de computadores. Para estas pessoas, a obsessão em alcançar um corpo perfeito terminou com perdas estéticas e funcionais irreparáveis.

O conhecimento das conseqüências decorrentes desta prática aponta claramente para uma óbvia conclusão: a administração intramuscular de substâncias oleosas para o falso aumento do volume muscular é irracional e inconseqüente. Vários motivos podem ser apontados neste sentido, tais como:

- falsa promoção de hipertrofia muscular através de grave agressão tecidual;

- aplicação em grande volume amplifica o risco de lesões;

- transmissão de doenças infecciosas por meio de seringas ou de material compartilhado;

- assepsia inadequada da pele e da seringa (risco de infecção local e sistêmica);

- técnica inadequada de aplicação das injeções aumenta o risco de lesão de tecidos nobres, como os nervos e vasos sanguíneos. Neste caso, o risco é de morte imediata, devido à formação de trombo-êmbolos oleosos que se deslocam através da corrente sanguínea e facilmente podem ocasionar embolia pulmonar seguida de parada cardiorrespiratória e morte;

- presença de dor aguda e residual à contração muscular;

- diminuição da força muscular, uma vez que há dificuldade do músculo se contrair devido à perda tecidual e também à barreira para uma contração muscular adequada (ocasionada pelo cisto);

- no caso de competidores estéticos (culturistas e atletas afins), o uso é proibido pois se trata de vantagem ilícita nas competições.

Com o passar dos anos, os usuários passaram a procurar substâncias mais baratas e de fácil aquisição, que vieram a substituir, em parte, os óleos originais. Passou a ser utilizado um complexo vitamínico de consistência oleosa chamado de ADE (pronúncia a-dê-é), cujos nomes comerciais são estimil, estigor e adethor. O uso adequado destes suplementos é veterinário e tem o intuito de corrigir deficiências vitamínicas e auxiliar no crescimento e reprodução de animais como bovinos, eqüinos e suínos. Composto de vitaminas A, D e E, em alguns casos associado ao anabolizante Nandrolona, o uso de ADE amplifica os riscos ainda mais que o uso isolado dos óleos.

Além dos riscos já descritos, ocorre abruptamente um perigoso estado de hipervitaminose no corpo humano. As conseqüências são ainda mais sérias, pois há um desequilíbrio em reações químicas importantes, havendo o risco iminente de morte. Sem referenciais precedentes, o manejo clínico é bastante complicado e ocorre em unidades de terapia intensiva.

Recentemente, várias mortes ocorridas no Brasil puseram as autoridades sanitárias em alerta. Foram cerca de 8 mortes durante o ano de 2004, amplamente divulgadas pela mídia. Há relatos de administração de grandes doses (30 ml de ADE em cada braço - dose equivalente para um hipotético animal de pelo menos 2 toneladas, dependendo do tipo administrado). Felizmente vários outros casos não terminaram em morte, mas trouxeram seqüelas irreversíveis, como paralisias cerebrais, necrose muscular e infecções generalizadas.

O presidente da Associação de Estudos e Combate ao Doping, sr Alexandre Pagnani, afirma que deveria haver uma parceria entre os ministérios da Saúde e da Agricultura, para o controle da venda destes medicamentos veterinários, atualmente realizados sem qualquer identificação e receita médico-veterinária. Segundo o jornal Folha de São Paulo (10 de setembro de 2004), o ministro da Saúde, Dr Humberto Costa, rebate a sugestão do presidente da ABECD afirmando que se trata de falta de informação entre os usuários.

Na visão do autor, o conjunto de ações necessário para evitar mais tragédias passa pela educação, com medidas como:

- informação de pais e professores;

- educação das crianças e adolescentes;

- suspeita das modificações localizadas e abruptas no volume muscular dos jovens;

- observar indícios de vigorexia nos filhos;

- fazer campanhas de conscientização em academias e

- estabelecer medidas de controle na venda de medicamentos veterinários.

Dr Rafael Trindade

CREMESP 115.205
Médico do Esporte, MSc
Oficial de Controle de Doping
Diretor Médico da Confederação Brasileira de Culturismo e Musculação

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